• Matheus Simplício

Ambiguidades e Anéis Mágicos



Quanto mais eu estudo a literatura cristã, mais eu me apaixono por ela. Ela é diferente, não se preocupa em ser escandalosa de mais, de ser profunda de mais.


Mas esse tipo de literatura nem sempre foi tão popular. No começo do século XX, ela passou bem despercebida pelo público, quase não existiam escritores cristãos que publicassem obras fantásticas.


E foi assim, até J.R.R Tolkien começar a escrever as aventuras de O Hobbit e O Senhor dos Anéis. Junto com seu amigo C.S Lewis, Tolkien "reascendeu a literatura cristã", como escreveu Colin Duriez no livo O Dom da Amizade.


Num plano em que orcs, trolls, dragões e magos são tão reais como você e eu, Tolkien usou muitas referências bíblicas para construir sua fantástica história.


Mas nada é tão lembrado nos livros e no cinema quanto Smeagol. Um ser que um dia foi "muito semelhante a um hobbit", e que se esconde nas sombras para que ninguém roube o seu "precioso", o anel mágico de Sauron que está sob seu controle.


O anel simboliza a maldade, a ganância e o poder na Terra-Média, aquilo que tem a capacidade de seduzir o coração do homem mais puro e honrado.


Smeagol tem uma relação de amor e ódio com o Um Anel. Ele ama a sensação de poder que o objeto lhe traz, mas odeia ter que depender disso para sentir-se completo. E por trás desse arco, o autor retrata a ambiguidade que o ser humano carrega.


A ambiguidade de Smeagol começa, quando o amor pelo anel se transforma em uma outra personalidade: Gollum. O pobre personagem se torna um coadjuvante dentro de si mesmo. Ele não consegue mais pensar só nele, tudo tem a ver com o anel.


Tolkien quis mostrar o estrago que o fascínio por poder consegue fazer em alguém.


Mas a ambiguidade não é uma característica dos personagens maus, os bons também a carregam.


Frodo Bolseiro foi o responsável por levar o anel até a Montanha da Perdição, para destruí-lo. Ele suportou o peso do objeto com toda força que um hobbit poderia ter. O pequeno Frodo foi um herói.


Mas quando ele percebe que Smeagol o está seguindo, por estar levando o anel, ele conversa com Gandalf, O Cinzento.


A sociedade do Anel: A Sombra do Passado. p.87:
Frodo: É uma pena que Bilbo não tenha apunhalado aquela criatura vil, quando teve a chance!
Gandalf: Pena? Foi justamente pena que ele teve. Pena e Misericórdia: não atacar sem necessidade.

O mesmo hobbit que aceitou o desafio de salvar toda Terra-Média, se arriscando em aventuras que o seu povo nunca se atreveu, é o mesmo que, ao olhar um ser visivelmente escravizado pela própria vontade, deseja sua morte.


Isso é ambiguidade, aquilo que cometemos com a cabeça erguida, sem perceber que já estamos sob influência de um anel mágico: nossa natureza.


Dentro de cada um de nós existe um Gollum, alguém que, como Paulo descreveu em Romanos 7:19, tem a facilidade de fazer o que é mal.


Assim como Smeagol e Frodo, estamos carregando um fardo pesado que tenta, a todo instante, governar o nosso coração. "Quem nos livrará do corpo dessa morte?".


O caminho é longo, árduo, cheio de monstros e dragões; mas a montanha que destruirá tudo isso foi construída por alguém bom, que passou por tudo que você e eu já passamos ou iremos passar.


Um tempo nos é dado para pensar nisso...

Mas a decisão não é nossa. Tudo o que temos de decidir é o que fazer com o tempo que nos é dado. Gandalf, O Cinzento.











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