• Matheus Simplício

Inquietudes de um Menino Quieto

Atualizado: 9 de Ago de 2019



Sempre fui quieto. Daqueles tipos que pareciam indiferentes a tudo. Quando pequeno, o que mais ouvia era: "como esse menino é calminho". Falo sério, todos ao meu redor tinham comentários desse tipo. O engraçado é que, até hoje, eu não sei como consegui transparecer tanta calmaria pois, na minha mente, estava acontecendo de tudo.

Além de me preocupar com as coisas rotineiras do Ensino Fundamental, precisei me adequar a uma lista minúscula de amigos. E sério, eu me adequei. Talvez isso havia acontecido por ter uma imaginação muito fértil. Não existe solidão quando a imaginação te leva a passeio. Até que a sua professora pergunta: "O que você quer ser quando crescer?"


Talvez você já tenha ouvido essa pergunta, ou até mesmo respondido. Mas já pensou na tortura que é respondê-la? Digo, isso é o tipo de coisa que você fala aos mais íntimos, não em uma sala cheia de crianças - em que você é íntimo de uma lista minúscula. Mas tudo bem, respondi: Policial. Sou policial hoje? Bom, conheço alguns e amo a franquia "Police Story". Só. Eu era tudo dentro da minha mente, mas na frente da professora, apenas um menino que repetiu o que seu amigo - da lista minúscula - disse antes.


É estranho não saber o que se quer ser mesmo com tamanha imaginação. Sempre me perguntei: sou tão imaginativo, por quê não respondi, pelo menos, o que passava pela minha cabeça? Fiquei sem essa resposta até conhecer Fernando Pessoa.


"Posso imaginar-me tudo, porque não sou nada.", diz Fernando Pessoa, "Se fosse alguma coisa, não poderia imaginar". Então uma lâmpada acende em cima de minha cabeça: eu queria ser tudo naquele momento. Não apenas um policial ou apenas um menino. Tudo. E eu queria ser tudo pelo simples fato de ser, no momento, nada. Uau, que fardo você me tirou Fernando Pessoa...que fardo.


Da premissa de que sou nada, construí belos valores a respeito de quem deveria me tornar. Esse é o mal do mundo, querer construir coisas em cima de coisas já construídas. O desfazer-se é necessário. Se aquela mesma professora me fizesse a mesma pergunta hoje, minha resposta seria algo do tipo: "Eu quero ser quem eu devo ser!". Na verdade, não sei nem se responderia. Afinal, sempre fui quieto.



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