• Matheus Simplício

Sobre Heranças


Lembro-me de quando eu era apenas um filho. Apenas um filho que pedia aquilo que não entendia, muitas vezes o que nem mesmo queria. Os filhos fazem isso, não por mal, mas por simplesmente serem filhos.


Com o passar do tempo, essas lembranças enfraquecem, diminuem a intensidade, se tornam fotografias manchadas pela poeira da vida. Então deixamos de ser filhos, nos tornamos adultos.


E na vida adulta saudamos o que um dia vivemos. Saudamos a infância que um dia pertencemos. E não existe verdade mais dura do que saber que não somos mais crianças. Precisamos cuidar da nossa vida, ninguém mais cuidará.


É verdade, ninguém cuidará mais. Pelo menos não como antes. E sabe qual o problema disso? Nenhum. Ta tudo bem. Precisamos entender a dor de não ser cuidado para saborearmos o cuidar.


E eu descobri esse sabor, me tornei pai.


E tudo que antes parecia apenas saudosismo se tornou algo real. Eu não voltei a ser criança, mas senti que viveria tudo aquilo de novo. Mas do outro lado: o lado que cuida. O lado que ama incondicionalmente. O lado que dorme menos.


Assim como diz o salmista, "os filhos são herança do senhor", e herança não se gasta, herança se cuida.


E não existe forma mais linda de cuidar de um filho do que imaginá-lo como herança do senhor, como alguém que está sendo preparado para algo maior. Eles são "uma recompensa que Ele dá", continua o salmista.


A paternidade é a descoberta de que você poderá viver uma infância novamente. Não será apenas uma fotografia manchada pela poeira do tempo, mas um filme que está sendo gravado no fundo do seu coração.


Darei valor a infância do meu filho; valor que talvez ele não dê em sua inocência, mas que aprenderá a saborear conforme seu crescimento.


Não sou mais o filho que pedia, agora sou o pai que oferece. O valor da herança é construída na jornada. Eu a aceito.



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